Há uma geração que tenta fixar alguma coisa, mas tudo queima, tudo vira fumaça.
 
Do olho mágico espiamos um mundo de fraqueza padecendo suas culpas – talvez as mesmas que povoam o lugar seguro que nos aprisiona. É na intimidade das confissões secretas que escancaramos nossos temores e aceitamos que nossa angústia é maior do que a vergonha.
 
O Intruso trata da erosão dos sentimentos e vínculos na relação entre dois jovens amigos: Mateus, dependente químico, e o narrador anônimo da história – que pincela os estágios de um duplo processo de esvaziamento. No relato introspectivo dos acontecimentos, o personagem que narra o drama tenta se desvencilhar dos laços que o prendem afetivamente a Mateus, motivado pela crescente degradação física e psicológica do amigo.
 
Se as recaídas constantes e a espiral de horror que atravessam a experiência dos dependentes químicos geram sofrimento nos próprios adictos, o efeito causado naqueles que cercam tais personagens também se mostra impactante.
 
O narrador de O Intruso tenta se libertar de sua própria memória e, de forma intensa e ligeira, cria um relato introspectivo deste que é um dos temas mais urgentes da contemporaneidade: a desumanização decorrente do vício e os sofrimentos que se multiplicam em torno do crack – ficção incontrolável sobre a qual não nos escapa o duro dever de expiar.

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